Cérebro-Mente: uma antiga questão!

Ao longo das civilizações, muito se aprendeu sobre o corpo humano, conhecimento este que caminhou paralelamente ao entendimento do universo. Parece que, quanto mais o homem olhava para o céu e desvendava seus mistérios, mais facilmente penetrava na natureza do próprio organismo. O cérebro, por ser o órgão mais complexo, tem demandado mais tempo para ser entendido e sua constituição elaborada só começou a ser desvendada com o advento da tecnologia.

Com o aprimoramento da ressonância magnética, atualmente não só é possível mapear as áreas do cérebro e suas funções como saber quais delas se relacionam com as diferentes emoções humanas.

Nesse contexto, onde entra a mente?

Emoções, sensações, consciência, personalidade – seria tudo isso comandado somente por um órgão regido por interações químicas e fisiológicas?

A questão cérebro-mente é antiga.

Desde os primórdios da humanidade e em diferentes civilizações, como Egito, Mesopotâmia, Índia e China, observa-se a construção de diversas perspectivas acerca da relação corpo-mente.

Os antigos egípcios localizavam no coração a sede do pensamento, emoções, razão, vontade e consciência moral.

Acreditavam em vida após a morte e que o destino de cada um seria decidido por um julgamento que ocorria logo após a morte. Na Sala das Duas Justiças, situada entre o submundo dos mortos e o além, tinha lugar a pesagem da alma. O coração era colocado em um dos pratos de uma grande balança, estando no outro prato uma pluma, símbolo da ordem divina. Se houvesse equilíbrio, o morto seria absolvido e poderia viver para sempre entre os deuses. Se o coração fosse mais pesado, seria devorado por Ammut, criatura híbrida de crocodilo e hipopótamo.

Foi somente na Grécia antiga, por volta do século V a.C., quando o homem se viu como parte da natureza e sujeito às mesmas leis que a regem, que vemos uma preocupação em se estabelecer, de forma racional, a relação corpo-mente.

Para os filósofos pré-socráticos, a fonte do pensamento foi inicialmente atribuída ao ar, depois ao sangue e, mais tarde, ao coração ou ao cérebro, prevalecendo o último.

A estreita relação entre a filosofia e a arte da medicina na Grécia Antiga possibilitou várias hipóteses sobre a relação entre a mente e o corpo. As doutrinas médico-filosóficas assim elaboradas unem os pré-socráticos a Hipócrates. Tido como o pai da medicina, com ele a ideia do cérebro como sede da razão e das sensações ganha força e divulgação.

Mas a discussão entre cérebro e coração como sede da alma ainda não havia se encerrado. Duas figuras se destacam e se tornam emblemáticas nessa questão: Platão e Aristóteles.

Para Platão, a parte divina e imortal da alma (logos), originária da própria alma do universo, teria o cérebro como sede.

Aristóteles, por sua vez, via o coração, órgão quente, como sede da alma e do intelecto, cabendo ao cérebro a responsabilidade por seu resfriamento, o que mantinha o coração correto e justo.

Mas a discussão entre cérebro e coração como sede da alma ainda não havia se encerrado. Duas figuras se destacam e se tornam emblemáticas nessa questão: Platão e Aristóteles.

Para Platão, a parte divina e imortal da alma (logos), originária da própria alma do universo, teria o cérebro como sede.

Aristóteles, por sua vez, via o coração, órgão quente, como sede da alma e do intelecto, cabendo ao cérebro a responsabilidade por seu resfriamento, o que mantinha o coração correto e justo.

Independentemente de sua localização, a própria natureza da mente era motivo de controvérsias entre os filósofos, que ficaram divididos entre duas ideias: a ideia de que a mente é produzida pelo cérebro, e a ideia de uma relação estreita entre cérebro e mente, mas tendo a mente certa independência.

A dúvida entre o cérebro e o coração como a sede da alma ficou em aberto durante toda a Grécia Antiga, mas a ideia do cérebro como sede da mente prevaleceu e influenciou Galeno, médico que viveu no século II d.C. Seus ensinamentos foram transmitidos ao mundo árabe e à Europa e serviram de base para todo o raciocínio médico medieval.

Depois de Galeno, há uma lacuna de novos conhecimentos, e algumas de suas ideias perduraram até o século XVIII.

No Renascimento, o conhecimento sobre anatomia humana muito progrediu, mas deixou em aberto a questão sobre a relação entre cérebro e mente.

No século XIX, foi levantada a hipótese de o cérebro servir de ferramenta para a manifestação da mente, sendo o cérebro somente um transmissor (como um aparelho de rádio), que pode ou não captar a mente, cuja existência independe do cérebro.

Atualmente, muitos pesquisadores defendem que, apesar dos escâneres do cérebro e sua tecnologia serem deslumbrantes, mente e cérebro são coisas diferentes. O domínio neurobiológico diz respeito às reações químicas por trás de nossos pensamentos e a mente diz respeito às pessoas, suas emoções, intenções e ideais.

A questão da natureza da ligação mente-cérebro permanece em aberto, sendo que algumas pesquisas mais recentes acrescentam a alma ao binômio cérebro-mente.

Isso mostra que, quanto mais se aprofunda nosso conhecimento nessa área, mais próximos estamos da conclusão de que muito precisa ser percorrido para que tenhamos uma tênue visão da complexidade da natureza humana.

Talvez, para compreender nosso universo interior, tenhamos que lançar mão de outros conhecimentos além dos que são fornecidos exclusivamente por nosso cérebro.

Talvez percebamos que nosso raciocínio é limitado perante a grandiosidade do que, com nossa mente, podemos alcançar.

Quem sabe, ao transcendermos os limites do raciocínio poderemos, enfim, acessar o conhecimento que nos permite ampliar nossa percepção a respeito de um maravilhoso universo que existe e do qual somos parte.

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